Entre mãe e filha*

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Aos seis.

– Bebê, o que você quer ser quando crescer?
– Princesa, mamãe! Vou morar em um castelo e ter um vestido igual ao da Bela.

Aos onze.

– Tchula, você já sabe o que vai ser quando crescer?
– Ah, mãe, sei lá… Ainda falta tanto tempo.

Aos treze.

– Filha, o que você vai querer fazer quando estiver mais velha?
– Não sei, mãe. Acho que quero ser advogada.

Aos quinze.

– E aí, filha, já decidiu qual profissão você vai querer ter?
– Advogada, mãe. Tem tudo a ver comigo. Um dia, posso até ser juíza. Legal né?

Aos dezesseis.

– Mãe, acho que não quero mais fazer Direito. Não sei, acho que ser advogada não é a opção certa pra mim. Queria fazer alguma coisa que tivesse a ver com comunicação… Mas ainda não sei bem.

– E agora, filha? O vestibular já é no ano que vem.

– É, mãe. Eu sei. Mas eu sempre gostei tanto de conversar, de ler e escrever. Tenho tanta coisa para falar! E também adoro escutar as histórias dos outros.

Aos dezessete.

– Mãe, decidi prestar vestibular para Jornalismo.

– Jornalismo, filha? Mas, você nunca tinha falado sobre jornalismo antes.

– Pois é, decidi meio de repente. Mas, acho que é a coisa certa a fazer.

Aos dezessete e meio.

– Alô, mãe? Passei na faculdade!!

– Ai, filha não acredito! Jura?

– Tá sentada, mãe? Ainda tem mais…

– O quê…?

– Consegui uma bolsa integral, mãe!! Pelo ProUni!

– (Choro)

– Não chora, mãe! Você tá feliz??

– …

– Mãe?

– (Meio rindo, meio chorando) Hoje é o dia mais feliz da minha vida!

Aos dezoito.

– Ficou sabendo?

– O quê?

– Caiu o diploma de Jornalismo…

– E agora?

– E agora, nada.

Aos dezenove.

– Mãe, lembra aquele documentário sobre trilha sonora no cinema brasileiro que eu fiz para a faculdade?

– Humm…

– Então, ganhei um prêmio!

– Um prêmio?

– É, mãe! Ele vai ser exibido na Rádio Cultura!

– Nossa, filha… Parabéns! Me fala o dia que vai ao ar para eu dizer para todas as minhas amigas escutarem, tá?

– (Rindo) Tá bom, mãe…

Aos vinte.

– Tô muito feliz!

– Por que, Nicolle?

– Decidi o que quero fazer no meu TGI.

– O que é TGI, filha?

– É o meu trabalho de conclusão da faculdade, mãe. Tipo um TCC, sabe? Só que no Mackenzie chama TGI.

– Ahhh! Mas, já? Você se forma só daqui algum tempo.

– É, eu sei. Mas já descobri uma coisa pela qual sou apaixonada. Por isso estou feliz.

– E o que é?

– Revistas.

– Ah, Nicolle… Isso eu já sabia! Se você tivesse me perguntado, tinha te dito. Não precisava ter esperado esse tempo todo para descobrir!

– …

– Quando você era pequena, vivia lendo revistas lá no salão. Às vezes você ficava tão quietinha que eu até esquecida que estava lá. Desligava o secador e esperava: se eu escutasse o barulho das páginas era porque você estava lendo. Era assim que eu sabia que você não tinha saído escondida para comprar doces.

– Ah, é?

– É! Você fazia uma pilha de revistas em volta do corpo e lia todas.

Aos vinte e dois.

– (Chorando) Dez, mãe. Tirei dez no TGI.

– (Chorando e me abraçando) Eu vi, filha. Eu vi. Parabéns, tá? Você me dá muito orgulho! Muito mesmo!

– Obrigada, mãe. Por tudo!

Aos vinte e dois e meio.

– Acabou. Estou formada!

– Jornalista.

– (Segurando o choro) Nem preciso dizer que esse canudo é nosso, né? Isso só foi possível por causa de você.

– (Segurando o choro) Eu sei, filha. (Chorando) Tenho tanto orgulho de você!

– Obrigada por tudo. Absolutamente tudo!

*Esse foi o meu texto de inscrição para o Curso Abril de Jornalismo 2013. Infelizmente, eu não passei.

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3 comentários sobre “Entre mãe e filha*

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