Como NÃO passar no Curso Abril de Jornalismo

Hoje é um dia muito triste pra mim. E esse post é fruto de olhos inchados e muitas lágrimas

Me inscrevi para a turma 2013 do Curso Abril de Jornalismo e apostei nele todas as expectativas de realizar um sonho que me acompanha durante uma vida inteira. Mas, não deu pra mim.

Não tenho palavras para expressar a tristeza e decepção que estou sentindo.

Então, só me resta reproduzir abaixo o texto que enviei para inscrição e torcer para que alguém consiga entender o que essa oportunidade significava pra mim – já que, obviamente, não consegui convencer a comissão avaliadora disso.

Que não sirva de exemplo pra ninguém…

Relato em terceira pessoa

Por Nicolle Azevedo

Ela encara a tela em branco do computador e se desesperada momentaneamente ao pensar nos mais de três mil e novecentos caracteres do outro texto (prontíssimo, aliás) elaborado para o mesmo fim. “Por que não envio aquele mesmo?”, pensa. Porém, descarta o devaneio logo em seguida, balançando a cabeça como quem espanta uma mosca, e procura se concentrar na busca de novas e melhores palavras que possam descrevê-la. A verdade é que ela está insegura. Acostumada a escrever sobre terceiros, acha difícil falar de si – ainda mais em uma circunstância que considera tão importante. Não quer revelar para quem quer que possa avaliá-la que é uma chata. Teme que percam o interesse.

Aos vinte e dois anos, acredita que não se parece com ninguém de sua idade. “Ou de nenhuma outra”, diz. Ela gosta de ficar sozinha. E de tomar longos banhos. Não curte música sertaneja e não gosta de balada. Com longos cabelos cacheados, não suporta quando alguém usa a famosa frase “debaixo dos caracóis dos seus cabelos” como cantada na rua. Namora há quatro anos e sonha em se casar. Às vezes, ela parece ter sessenta anos. Às vezes, trinta. E, vez ou outra, seis. Mas, quase nunca se sente como alguém de vinte e dois.

Embora mude de opinião com alguma facilidade, sente-se bem ao tomar uma posição sobre os assuntos. Quando erra, se desculpa. E se anima ao acertar. O que ela não quer mesmo é ficar no meio. Gosta de revistas desde que se entende por gente. No salão de beleza de sua mãe, ainda criança, costumava esconder-se de qualquer adulto que pudesse censurá-la por ler a Nova. Aos quinze, já se considerava uma mulher de Cláudia. “Ou gostava de pensar que me tornaria uma, um dia”, assume. Isso tudo muito antes de sequer saber que seria jornalista.

Foi na universidade que ela aprendeu que as pessoas são definidas por suas profissões. Ainda no primeiro ano de curso, um professor lhe dissera que somente um nome não representa nada se não vier seguido de um ofício. Nada. Isso a fez pensar. Ela estava a caminho de se tornar algo que a definiria como pessoa. Quatro anos depois dessa primeira lição, superando todas as expectativas, a ProUnista com desconto integral na mensalidade formou-se com média dez em seu trabalho final. Pronto, agora ela era “Nicolle Azevedo, jornalista”.

No entanto, hoje ela tem a clara percepção de que existe um fator determinante que a fez uma jornalista bem antes de ingressar na universidade: as revistas. Desde pequena, ela já intrigava todo mundo por se distrair lendo longas matérias, enquanto outras crianças preferiam brincar de colorir. De maneira simples, pode-se dizer que fazer jornalismo foi a consequência natural de uma vida cercada por Caprichos, Cláudias e Novas. Era chegado o momento em que ela não se contentava em somente ler as revistas. Ela queria ser.

Hoje, Nicolle sente-se realizada com sua formação e não sente a necessidade de realizar uma atividade para impressionar os outros, como frequentemente percebe entre seus colegas, pois acredita que se você é mais prestigiado por sua função secundária do que pela principal, alguma coisa está errada. Por isso, Nicolle não é jornalista/cantora, nem jornalista/atriz. Embora deva-se acrescentar que tenha sido escolhida pela professora de literatura para dar vida à Rita Baiana em um sarau de fim de ano na época de colegial. E também emprestado sua pele à Grazia, para quase morrer de verdade nas mãos do empolgado colega de cena que viveu Nicolino e foi tomado por seu amor desvairado. Experiência traumática resultante de habilidades cênicas lamentáveis.

Com receio de alimentar falsas expectativas, Nicolle admite que pode parecer bem menos interessante do que alguém que já viajou o Brasil escrevendo sobre doenças raras ou que já acorda inspirado pelas páginas de Graciliano Ramos. Ela nunca saiu do país (por pura falta de condições financeiras, não de vontade), embora fale inglês mesmo assim. Sobre isso, ela procura pensar que oportunidades virão.

Ao lembrar-se da tela em branco do computador, Nicolle ri de seu desespero inicial e encerra o texto feliz por achar que encontrou as palavras certas para dizer o que queria. Ela não quer desperdiçar a possibilidade de um futuro promissor como jornalista. Porém, ainda falta colocar algo importante. Ela quer dizer que não poderia se candidatar para estar em qualquer outro lugar que não fosse o Curso Abril de Jornalismo. “Porque alimento esse desejo desde antes de saber que ele existia”, finaliza otimista.

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10 comentários sobre “Como NÃO passar no Curso Abril de Jornalismo

  1. Mellyna Reis disse:

    PS.: Eu já ganhei um prêmio jornalístico e fui indicada à final de outro justamente por ter proposto, ousadamente, uma série de reportagens em terceira pessoa. :)

    • Mellyna Reis disse:

      Ops! Escrevi errado: obtive essas conquistas com o texto em 1ª pessoa e, jornalisticamente falando, “isso é errado”. Por isso, digo: não ache que o formato que você escolheu foi errado pois o conteúdo é muito bom. Jornalismo com fórmulas está caducando. O conteúdo do seu texto sobrepõe o formato, portanto, pense que podem ter sido ‘eles’ que erraram ao não te escolher. Só não perca a personalidade porque aí sim, ficará difícil encontrar o seu espaço.

  2. Mellyna Reis disse:

    Menina, fiquei curiosa com o seu texto. Já sou formada e trabalho na área há um tempinho. Mas, você não passou com esse texto? Porque se for, quem perdeu foi a Abril. Não fique triste porque você pode pensar que não, mas tem personalidade sim. Talvez, apenas talvez, eles não tenham quisto alguém com personalidade e optaram por “pedras” que necessitam ser melhor lapidadas. Fique tranquila, sua hora jornalística vai chegar e pode ser que chegue em um melhor lugar.

    Mellyna Reis
    Correspondente na Bahia

  3. Adriano Lira disse:

    Oi, Nicolle!

    Eu fui uma das pessoas que foram chamadas pra próxima fase do Curso Abril e acabei chegando até aqui por pura curiosidade. Enfim, eu adorei o seu texto! Portanto, se não foi dessa vez, fica tranquila – alguém ainda vai ver que você manda bem.

    Eu também já passei por várias decepções com relação à minha curtíssima carreira. E por mais que seja difícil, ter paciência é importantíssimo. O que tiver que ser, vai ser. Sério!

    Todos esses processos de avaliação têm suas falhas, sabe? Nada é 100% justo. Aposto que eles vão acabar escolhendo várias pessoas estúpidas. É sempre assim! hahahaha

    Quem é bom nunca vai ficar de fora. Pode levar um ano ou dois, mas vai dar certo.

    Boa sorte aí!

  4. Carina Batista disse:

    Eu entendo perfeitamente o que você está passando… Também me inscrevi para o curso, apostei todas as minhas fichas e não fui chamada…

    Não faço ideia do que posso dizer para te consolar… Já tentaram fazer isso comigo e não deu certo… Acho que a única coisa que posso te falar é para não perder a fé… Eu não perdi a minha e acredito que no próximo ano estaremos lá e ainda vamos rir disso tudo…

    Deus sabe tudo que faz… Apesar de acharmos que agora era a a hora, só Ele sabe a hora que será…

    Penso que você, assim como eu, bolsista do Prouni, já somos vencedoras só de chegarmos onde chegamos….

    Boa sorte na sua trajetória!!!! Te vejo em São Paulo no ano que vem!!!!! =D

  5. Thiago Moura disse:

    Deus sabe de todos os caminhos e não perca as esperanças do futuro, o que te fortalece não são os destinos e sim as trajetórias. Apesar da distância estamos torcendo e rezando e sofrendo e entristecendo e renovando junto com você. Te amo

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